Sobre a comunicação no dia a dia…
“Quem poderia imaginar que tudo o que temos é exatamente o que merecemos, pois é reflexo do que somos? (…)”
A palavra “merecimento” tem, no dicionário da língua portuguesa, pelo menos os seguintes significados:
1.aquilo que torna alguém ou algo digno ou passível de receber prêmio ou castigo.
2.aquilo que empresta valor a algo; aquilo que há de bom, vantajoso, admirável ou recomendável em alguém ou algo; importância, preço, valor.
À primeira vista, quando falamos que “merecemos” algo, pulamos diretamente para o segundo significado, não é mesmo?
Mas, se juntarmos a esses significados essa parte da frase inicial:
“(…) tudo o que temos é exatamente o que merecemos, pois é reflexo do que somos? (…)”
… temos então uma nova perspectiva do que seja “merecimento”.
Mesmo que seja o prêmio ou o “castigo”!
Reflita sobre essa ideia…
Agora vamos associar essa ideia de merecimento e de reflexo do que somos ao tema da comunicação nossa de cada dia e de todas as horas.
Pare um pouquinho e relembre o seu dia…
Questione-se:
Como tenho me comunicado comigo mesmo?
Mereço o que tenho pensado, sentido e dito a mim mesmo e sobre mim mesmo?
E qual tem sido a natureza da minha comunicação para com as consciências do meu convívio, nos mais diversos ambientes da minha vida?
Aqui, vamos incluir também as consciências pelas quais rezamos e nas quais pensamos, incluindo as consciências extrafísicas (que já não estão mais na mesma dimensão que nós)…
Elas merecem o que tenho pensado, sentido e dito sobre elas e para elas?
A palavra “comunicação” tem sua origem no latim communicare e significa: partilhar, tornar comum, participar de algo.
O que temos partilhado ao nos comunicarmos?
Aquilo que “tornamos comum” é, em última instância, o que temos no íntimo. É o reflexo do que pensamos, sentimos. É a nossa autoexpressão.
Autroexpressão é “a capacidade da consciência exteriorizar para os outros, ou comunicar para o Cosmos, as próprias manifestações pensênicas, a intencionalidade, a autodeterminação ou o autoposicionamento a respeito da realidade e da pararrealidade, dos fatos e dos parafatos, na vida ou nos experimentos da evolução consciencial”.
É a nossa assinatura pensênica.
Que traços essa assinatura revela?
1. Lucidez? (O autodiscernimento específico dos pensenes pessoais).
2.Reflexão? (O ato de refletir antes de falar).
3.Confor (conteúdo e forma)? (O ato de ponderar antecipadamente, com detalhes, o conteúdo e a forma dos pensamentos e emoções/sentimentos, a serem manifestados).
Nas nossas manifestações concretas, buscamos praticar a comunicação sadia, esclarecedora, que nos auxilia na autossuperação, na reconciliação e na prestação de serviços (a assistencialidade)?
Para isso, essa comunicação exige de nós o cultivo de alguns requisitos que se obtém através da auto-observação e autoenfrentamento constante, a saber:
a pensenização discernida: a autopensenidade caracterizada pelo discernimento e pela coerência entre o que pensamos, sentimos e manifestamos;
> costumo observar se meus pensamentos estão de acordo com o que sinto?
> quando expresso minhas opiniões, elas revelam de fato o que estou pensando?
> durante o dia, há coerência entre o pensamento e a fala e a ação? ou registro mais incoerências?
> nessas questões que incluem antagonismos, deixo o Eu crítico, juiz, manifestar-se com rigor, trazendo-me remorsos e autopiedade?
a autoflexibilidade lúcida na escolha do melhor termo: estar atento para saber usar as palavras em diferentes situações, empregando a delicadeza mentalsomática, sem tornar-me agressivo ou demonstrar superioridade;
> cuido para escolher o momento certo e a palavra mais adequada antes de me expressar?
a autocapacidade de esclarecer com diplomacia: prestar atenção na transmissão do conteúdo exposto, o que não significa mostrar erudição; a comunicação feita de modo simples e direta muitas vezes é mais rica em conteúdo do que as frases bem elaboradas, mas vazias de sentido;
> uso a comunicação e o conhecimento que possuo para esclarecer ou com segundas intenções (manipular, convencer)?
> respeito o interlocutor, sem desrespeitar a mim mesmo?
o ato de ouvir mais: decidir-se pelas intervenções silenciosas, sabendo discernir o momento mais adequado para falar ou calar;
Essas “dicas” parecem óbvias. Mas…
> estou atenta/o a tais posturas no dia a dia?
> quanto o meu silêncio é eficaz na resolução de conflitos?
> quando esse silêncio se torna omissão? Em que situações isso ainda acontece?
o investimento na leitura a fim de aprender, enriquecendo o vocabulário para oferecer melhor esclarecimento; a leitura discernida e a importância de saber interpretar;
> qual o quantitativo de leituras durante um mês?
> como avalio a qualidade de tais leituras?
> consigo fazer interpretações assertivas de textos? E de situações? E de contextos?
a distribuição de afeto na comunicação com as pessoas mais próximas;
> tenho construído, com a pessoas do convívio mais íntimo, uma comunicação mais harmônica?
(Voltando ao que falamos sobre merecimento):
> que relação faço entre o ato de comunicar-me com e o meu conceito de merecimento?
o desmascaramento íntimo como item do autoenfrentamento;
> ocupo-me do autoexemplarismo nos ambientes em que convivo?
Ocupar-se significa dar prioridade a esse aspecto de modo a torná-lo cada vez mais parte da autoexpressão.
> da minha lista de traços (força, falhos e faltantes), em quantos e quais tenho trabalhado, no sentido de fortalecer, corrigir e obter, respectivamente?
> quais as dificuldades que ainda enfrento para listá-los?
> que impedimentos enfrento para fazer autorreeducação das falhas comunicativas?
Não é tarefa simples identificar as “sombras” que fazem parte de nós…
Porém…
Somos capazes de abrir os olhos para enxergá-las… este seria um GRANDE primeiro passo…
> vamos tentar?
Na autoinvestigação dos traços, é essencial a vontade de querer conhecê-los, a intenção sincera de autoaperfeiçoamento e a determinação de não deixar passar as oportunidades do autoestudo.
Juntando as pontas dessa reflexão, merecimento e comunicação, vamos tentar criar uma associação entre os conceitos que temos de ambos os termos, na perspectiva de autossuperação.
Crie o seu próprio conceito dessas palavras;
Anote e registre outros termos que podem interagir nessa relação;
Volte a essas anotações sempre que alguma ideia lhe ocorrer sobre o assunto.
Tente fazer uma síntese para guiar a autoinvestigação sobre a qualidade da sua prática comunicativa…
“O mundo está repleto de pessoas surdas que conversam; de convivências mudas que se expressam. Fala-se muito sobre nada e dialoga-se em demasia sobre coisa nenhuma, resolvendo-se uma larga fatia de problemas, que permanecem… Quando alguém se te acerque e fale, procura ouvi-lo e registrar-lhe a palavra. Talvez não tenhas a forma ideal para dar-lhe, nem disponhas do que ele espera de ti. Muitas vezes, ele não aguarda muito; somente fala por falar. Concede-lhe atenção e o estimularás, facultando-lhe sentir-se alguém que desperta interesse. (“MOMENTOS DE CONSCIÊNCIA”, Joana de Ângelis/Divaldo Franco, p. 86).
Esta frase fala sobre comunicação, merecimento e envolve todos e cada um dos elementos do pensene: pensamentos, emoções/sentimentos, energia e ação.
E nas entrelinhas, ainda fala sobre autossuperação, reconciliação e assistencialidade…

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