Liberdade raciocinada

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Liberdade raciocinada

Há filósofos que atribuem ao homem uma liberdade ilimitada.
Outros há que admitem uma liberdade absoluta, em virtude da qual o homem age sem motivo. Isso, porém, é presumir efeito sem causa, é isentar o home da lei de causalidade.
Uma tal liberdade nada tem de real, não passa de especulativa e absurda.
Precisamos, ao contrário, reconhecer uma liberdade acorde com a natureza humana, liberdade que a legislação pressupõe, liberdade raciocinada.
Três são as condições fundamentais da legítima liberdade: em primeiro lugar, é preciso que a criatura possa escolher entre vários motivos. Seguindo o motivo mais forte, ou agindo só por prazer, já não se opera com liberdade. O prazer não é mais que uma falsa aparência de liberdade.
A ovelha que mastiga a erva com prazer, não está mais forte, também o animal, quanto o homem, não pratica livremente, tão-pouco.
A condição precípua da liberdade é a inteligência, ou a faculdade de conhecer e escolher os motivos. Quanto mais ativa a inteligência, mais ampla a liberdade.
Os idiotas natos, as crianças até uma certa idade, têm, às vezes, desejos muito enérgicos, mas ninguém os considera livres, visto não possuírem inteligência bastante para distinguir o falso do verdadeiro. Os homens mais bem educados e os mais inteligentes são os de quem, mais que dos ignorantes, deploramos as faltas.
À medida que se elevam na série das faculdades intelectivas, os animais vão-se tornando mais livres e modificam mais individualmente os seus atos, de acordo com as circunstâncias exteriores e com as lições de sua prévia experiência. Se empregamos a violência para impedir o cão de perseguir a lebre, ele se lembrará das pancadas que o aguardam, e árdego e trêmulo ao império dos próprios desejos, não deixará de ceder.
O homem, superior a todos os seus irmãos da escala zoológica, é, por sua mesma natureza, o ser que goza de liberdade no grau mais eminente. Só ele procura encadear efeitos e causas, comparar melhor o presente e o passado, e daí tirar conclusões para o futuro. Pesa as razões, detém-se nas que lhe parecem preferíveis, conhece a tradição. Seu raciocínio decide e perfaz a vontade esclarecida, muitas vezes contrariamente aos seus desejos.
Uma última condição da liberdade é a influência da volição sobre os instrumentos que devam operar suas ordens pessoais. O homem não é responsável por desejo ou por faculdades afetivas dele independentes. A responsabilidade individual começa com a reflexão e com a possibilidade de proceder voluntariamente.
No estado de saúde os instrumentos operatórios subordinam-se à influência da vontade. A fome é involuntária, mas, se em senti-la, eu me abstiver de comer, exerço a influência da minha vontade sobre os instrumentos do movimento voluntário. A cólera é involuntária, mas eu não sou forçado a maltratar quem me provoque, só porque a minha vontade influi em meus músculos. Perdido o domínio dessa influência, então, sim, o homem já não é livre. É o que amiúde sucede com os alienados, que experimentam desejos, reconhecem a sua inconveniência, chegam a maldizê-los, mas não têm a força de restringir os movimentos involuntários, chegando mesmo, algumas vezes, a pedir que lhos embarguem.
(…)
Quaisquer que sejam as conclusões teóricas a que cheguem os lógicos na questão do livre arbítrio – dizia Samuel Smiles -, todos sentimos que somos praticamente livres de escolher entre o bem e o mal. Não somos o seixo que, lançado na torrente, apenas pode indicar, seguindo-a, o curso das águas. Ao contrário, sentimos em nós a força do nadador, que pode escolher a direção convinhável, lutar contra a corrente, ir mais ou menos aonde lhe praza.
Nenhum constrangimento absoluto nos empece a vontade. Sentimos e sabemos, no concernente aos nossos atos, que não somos encadeados por qualquer espécie de magia. Todas as nossas aspirações para o bem e para o belo ficariam paralisadas, se pensássemos de modo diverso.
Todos os negócios, nossa conduta na vida, regime doméstico, contratos sociais, instituições púbicas, tudo, enfim, se baseia na noção prática do livre-arbítrio. E, sem ele, onde estaria a responsabilidade? De que serviria ensinar, aconselhar, predicar, reprimir, punir? Para que leis, se não houvesse uma crença universal como o próprio fato universal de que dos homens e de sua determinação depende conformar-se ou não? O homem que melhor evidencia seu valor moral é o que se observa a si mesmo, dirige as suas paixões, vive conforme a regra que se impôs, estuda suas aptidões e sua falhas.
Eis, verdadeiramente, o homem: sua grandeza está na sua liberdade.
(Do livro Deus na Natureza, 1867 – Camille Flammarion)

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Este texto foi escrito por pessoa(s) parceira(s) ao Holomovimento e não reflete, necessariamente, a opinião do projeto. A autoria do texto encontra-se abaixo do último parágrafo.

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